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Published: 2003-10-26 13:54:28 +0000 UTC; Views: 206; Favourites: 0; Downloads: 31
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Description
"Decadência" ou... "As horas na cidade"As horas no relógio apontam meio-dia, ou meia-noite; acordei há pouco e ainda não sei que horas são para mim, que tempo faz dentro de mim.
Por vezes o tempo passa mais rápido que nós próprios, as horas ultrapassam-nos e a cidade começa a desvanecer contornos: as ruas desfazem-se lentamente com o reflexo da chuva a escorrer nas janelas de vidro, as pessoas ganham formas estranhas como em espelhos de circo, as ruas e as estradas magoam-me porque o seu único fim para ser o de voltarem ao início, como um esfera difusa onde me perco e não me encontro.
Seria uma boa ocasião para acender um cigarro – poderia usá-lo como fogo-de-artifício e tentar fazer sorrir o vizinho da frente, que todos os dias vem despido até à janela procurando nos varandins a roupa interior das vizinhas a secar, imaginando-as a dançar à medida que o vento agita as cordas e as molas do estendal, distraindo-o…
Mas não fumo, nem bebo. A cidade é o meu vício.
Lembro-me de correr pelas ruas com um mapa na mão, como turista estrangeiro, ansiando por conhecer todos os becos e todas as curvas, tratando as avenidas como bonecas de luxo, seguindo os carris do eléctrico como se veias até ao coração da cidade, riscando os nomes no mapa, desenhando as casas na memória, entendendo novos caminhos de infernos e céus.
Certos dias, mais cedo que em outros, as luzes das ruas acendem-se. Por vezes penso se não estarão sempre ligadas, e só reparamos nelas quando a escuridão se torna demasiado espessa para querermos ver sozinhos. Imagino-as sempre como pequenos faróis de costa, que tentam mostrar-se, competindo ferozmente umas contra as outras, guiando todos para lugar nenhum, pássaros solitários duma altura limitada pela sua própria natureza.
Gostaria de ter apenas janelas no meu quarto… De ver os quatro cantos da cidade, deslindar o amanhecer e conseguir entender o que acontece às casas quando o sol faz as suas sombras tocarem obscenas umas nas outras, entardecendo e trazendo uma escuridão que não deixa ver o que acontece depois, nem quando entre as nuvens aparece uma lua concupiscente.
Pedro Araújo
Nov. 2002
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Comments: 7
Paula-Rosa [2003-10-28 11:11:49 +0000 UTC]
Excelente texto. Muito "fluído" sem dúvida. Adorei ler.
" Por vezes o tempo passa mais rápido que nó s próprios, as horas ultrapassam-nos e a cidade começa a desvanecer contornos"
Está lindo e é tão verdadeiro. Parabéns!
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engenheiro [2003-10-27 20:43:17 +0000 UTC]
xelente texto, muito "gráfico". consegues transmitir muito bem as sensações, algumas delsa com as quais tb me relaciono. muito bom mm
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LA-Woman [2003-10-26 15:55:04 +0000 UTC]
Texto bonito, bem escrito e fluente... Gostoso de ler !!!
Me identifiquei muito até o terceiro pará grafo (tirando "a cidade é meu vício" e colocando talvez "a solidão é meu vício" ...), Mas não sou muito de perambular pela cidade... errrr... Apesar de adorar a luz noturna das cidades (principalmente São Paulo, cheia de letreiros de neon), coisas brilhantes me ipnotizam!!!
Muito bom o texto !!!
Bjoks
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rychas [2003-10-26 14:35:43 +0000 UTC]
Também gostava disso... bem escrito, pequenos pormenores interessantes.
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n0-order [2003-10-26 14:01:55 +0000 UTC]
no idea wot the mans but ur pics good
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